Reflexões de um Astrósofo

Ainda a propósito das culturas superiores

17 de Agosto de 2019, 6:06

João Miguel Tavares

“Ainda que estabelecer demasiados paralelismos entre evolução biológica e evolução cultural seja arriscado, não é possível olhar seriamente para a História pondo de lado qualquer ideia de progresso. E o progresso faz-se através de uma selecção de valores, de leis, de crenças e de costumes – ou seja, de culturas, dentro daquilo a que podemos chamar um mercado de ideias planetário. Umas ideias foram ficando, outras foram morrendo, e essa selecção não é somente obra do acaso”.

“Quando digo que há culturas superiores a outras, o contexto é este. Superior é tudo aquilo que resiste à prova do tempo, que possui sementes de perenidade e pelo qual vale a pena lutar”. (J.M.T.)

Reflexões de um Astrósofo

​Se levarmos em conta a teoria defendida por J.M.T a Astrologia e a Mitologia deveriam a ser dois saberes tradicionais promovidos pela cultura oficial!

Segundo a opinião de João Miguel Tavares cronista do “Público” há duas ideias essenciais que comandam o fio da história: uma é a ideia de progresso a outra é a de cultura no seio das sociedades.

Embora estas duas ideias sejam pedras basilares nas análises sociológicas, seria no entanto também importante enquadrá-las num quadro mais gnosiológico e psicológico, resultante da actividade de indivíduos.

Quando falamos de progresso referimo-nos a quê? Ao aspecto biológico, à riqueza material, à evolução tecnológica, à capacidade de crescimento de recursos, à capacidade de reproduzir vida orgânica e material, ao aumento de consciência ética e o reconhecimento de leis universais?

Quando falamos de cultura referimo-nos a quê? Ao desenvolvimento de leis, crenças e costumes de uma determinada região, de um agrupamento de indivíduos, de um Estado ou de um Império? À capacidade das diversas culturas de distribuir riqueza, ou de promover bem-estar nos indivíduos?

A cultura ocidental tal como a conhecemos hoje assentou em quatro pilares fundamentais:

- A cultura grega legou-nos valores essenciais como a ética, a estética, a filosofia e a política, nomeadamente o modelo democrático

- A cultura romana legou-nos o direito, a organização na forma de disciplina e estrutura, e a noção mais clara de Império centrado num Imperador.

- A cultura Judaica do Médio Oriente legou-nos valores patriarcais, o Monoteísmo, noções de Hierarquia, de conservadorismo e respeito pelas tradições…

- O Cristianismo, a importância do indivíduo, a primeira tentativa de uma cultura e religião universal englobando todos os seres, crenças e religiões (conforme os ideais das primeiras comunidades cristãs).

Movimentos culturais de progresso, contra progresso e contracultura:

No período Helénico, nomeadamente na Escola de Alexandria deu-se uma fusão de saberes tradicionais oriundos do Egipto e da Babilónia, interagindo nas comunidades de gregos, judeus e árabes.

Hiparco de Rodes (Séc. II A.C) deixou-nos textos sobre o fenómeno da Precessão dos Equinócios!

Aristarco de Samos (Séc. IV A.C) defendeu o movimento de rotação da terra e o heliocentrismo e que mais ainda poderíamos descobrir se o grande legado da biblioteca de Alexandria não tivesse ardido pelas mãos do fanatismo religioso!

E que fez o decadente Império Romano nas mãos do Imperador Constantino que mudou de partido e adoptou o cristianismo nos últimos anos da sua vida!

O concílio de Niceia presidido por Constantino em 325 D.C viria a criar os primeiros estatutos da Igreja Apostólica Romana e com eles a diferenciação do que seria ou não, a dita heresia!

Nesse sentido, a Igreja católica com a sua Inquisição, e mais tarde com a Reforma e a Contra Reforma, praticamente todas as igrejas se afastam dos ideais que estavam subjacentes nos primórdios do cristianismo.

​Ao nível da ciência oficial controlada pelo império religioso, o dito progresso foi também minado e a astronomia de Ptolomeu manteve-se até ao tempo de Copérnico!

E o que dizer das descobertas de Leonardo da Vinci, Jules Verne e de Nikola Tesla, para só nomear alguns, se depois do poder ditatorial da Igreja vêm o Estado e os mercados financeiros das culturas vigentes de cada época e se apropriam desses conhecimentos para os benefícios de apenas uns poucos e controlo dos demais!

Houve fanatismos, crenças e demagogias que resistiram à prova do tempo (sendo este relativo, pelos menos duraram nalguns casos séculos e noutros milénios) e não podemos dizer que houve um progresso de evolução exponencial nestes dois últimos milénios. Ora vejamos, a abolição da escravatura e da pena de morte é algo recente na nossa história, tivemos nacionalismos compulsivos e 2 Grandes Guerras que colocaram em causa o instinto de sobrevivência e de fraternidade na humanidade.

Existem lugares à face da Terra, onde os direitos humanos não são reconhecidos ou não contam, onde se comercializa tudo em função do lucro, sem levar em conta o planeta, as espécies que nele habitam e toda a biodiversidade.

Hoje, para além do desenvolvimento tecnológico e das conquistas da ciência, temos uma sociedade amputada da sua sacralidade, com isso não me refiro a questões religiosas, mas à ausência de uma verdadeira espiritualidade. O investimento da sociedade no equilíbrio entre ser e estar é fulcral, a produção, a criatividade e a partilha deveriam substituir a concorrência, o lucro pelo lucro e o despotismo.

A actual escravatura é económica, e com ela corremos o risco de uma terceira guerra mundial, desta feita não de humanos com humanos, mas entre homens e planeta, e o desfecho é bem previsível!

Em forma de epílogo:

​Existe uma alma oceânica nalguns espíritos portugueses destes confins da Europa que incorporam um espírito universal!

A Roca não para de fiar através do Tempo e fita com olhar languido e sobranceiro o Ocidente, como diria o Poeta, o saudoso Ocidente, futuro do passado, e esse rosto com que fita designa-se ainda hoje, por - Portugal!

​Astrósofo Luís Resina

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